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Crítica do filme “Êxodo: Deuses e reis”

exodus-gods-and-kingsVocê deveria assistir Êxodo? Se você está procurando um filme clássico de Ridley Scott como ‘Gladiador’ ou ‘Alien’, então infelizmente, devo dizer que não. Êxodo: deuses e reis não chega nem perto de ser inovador. E se você está esperando uma releitura biblicamente fiel do livro do Êxodo – então, novamente, não. Scott joga superficial e rasteiramente com as Escrituras, fazendo alguns desvios enormes para efeito artístico. Mas, se você quer um filme para se divertir e se maravilhar, este filme é um verdadeiro deleite.
Existem muitas coisas interessantes que se poderiam ser ditas deste filme. Aqui estão algumas.
Deus é uma ilusão?
Scott faz algumas escolhas controversas. Ele faz Moisés ter  um ferimento na cabeça para iniciar uma experiência de conversão. Quando Moisés fala com Deus, é claro que todo mundo só vê Moisés falando para si mesmo. Uma narrativa naturalista é oferecida para as pragas milagrosas, e até mesmo a divisão do mar Vermelho coincide com um meteoro e um tsunami resultante. Será que Scott está tentando desmistificar a  história, à procura de uma rota de fuga aplacar os críticos ateus, ou está evitando a verdade das intervenções milagrosas de Deus e as suas implicações? Devemos concluir que Deus é simplesmente uma ilusão? Mas, mesmo na sugestão de Scott, de que os milagres em Êxodo são eventos coincidentes, tem que se encarar sua calendarização sobrenatural. Apenas quando Moisés diz ao faraó deixar ir o povo de Deus, o Nilo se transforma em sangue e as pragas começam. E quando Israel precisa de uma rota de fuga do Egito, abre-se um caminho através do mar. Para mim, as palavras que aparecem na tela no início do filme são instrutivas: ‘depois de 400 anos de escravidão no Egito os hebreus não tinham esquecido sua pátria… ou seu Deus. E Deus não tinha esquecido deles’. Uma fé que suportou que tanto tempo naquelas condições é testamento para a realidade de Deus, como é a incrível o relato da libertação de um grupo étnico minoritário da superpotência a egípcia. Então, é o fato de que milhares de anos mais tarde estas histórias estão ainda sendo recontadas. Deus não se esqueceu e nós não esquecemos Dele. Ainda somos uma cultura dominada por Deus…
Com o quê Deus se parece?
Parece que Andrews foi convidado a retratar Deus como mal-humorado, malévolo e destruidor. Christian Bale, que interpreta o Moisés, descreveu Deus na história do êxodo como ‘Mercúrio’, e Scott fez definitivamente seu personagem de Deus inconstante e instável. Isto é visto claramente na manipulação de Scott, de uma das mais difíceis passagens na Bíblia: a decisão de Deus para fazer a última das dez pragas do assassinato do filho primogênito de cada família egípcia. Há uma disputa de gritos entre Moisés e Deus. Moisés argumenta que esta vingança é bárbara e diz que ele não terá nenhuma parte nele. Os eventos da Páscoa, portanto, são retratados como uma má decisão feita por uma criança emburrada. Isto é uma arte religiosa – um disparate na história bíblica, não uma reconstituição fiel. Mas nesta imagem de Deus, acho que Scott tem infantilizou Deus, difamado o seu personagem e menosprezado sua glória. Este é, talvez, um sinal dos tempos, que um diretor visionário como Scott vê Deus como insignificante ou pretenda representá-lo como tal. Mas apesar das minhas reservas, Scott também tem um relacionamento com Deus. Muitas vezes filmes retrataram a espiritualidade como uma espécie de estado extático de perpétua serenidade. Scott leu o suficiente do livro do Êxodo e os Salmos para saber que um relacionamento com Deus pode ser elevado e argumentativo. E ele parece entender que Deus não tem de ajustar nossas expectativas ou tradições.
De que lado você está?
Para um cineasta que adora a ideia de um herói romântico – uma figura solitária que usa toda a sua retórica, intelecto e habilidade em combate para vencer um inimigo impossível – não é surpreendente que Moisés seja reformulado como um gênio militar, levando a uma revolta terrorista contra os egípcios. Há uma montagem clássica onde Moisés treina as pessoas a lutar com espadas, arcos, flechas e, estranhamente, explosivos. O filme mais tarde se transforma em um confronto entre Ramsés e Moisés, quase culminando em combate mão a mão no meio de um tsunami…Este filme é uma festa visual. Existem algumas cenas absolutamente deslumbrantes e o conjunto de sequências são feitos com prazer. As dez pragas são esteticamente pródigas, as vistas panorâmicas do antigo Egito são ótimas e, claro, o fechamento (ao invés da separação) do mar vermelho deixa você, juntamente com o exército egípcio, com falta de ar…Quando saí do cinema me senti irritado e encantado em igual medida, encorajado que uma enorme audiência global terá de lutar com um remake fresco desta história poderosa. Minha oração é que muitos que vejam o filme  sejam conduzidos para a Bíblia para ler a história completa de Moisés…

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